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|
| Redução
do Impacto Ambiental pelo Uso de GLP e Gás Natural nas
Indústrias |
| por
Fernando Costa©
|
Introdução
Desde
os primórdios da humanidade, o consumo de energia vem aumentando
tanto no consumo per capita como no consumo global. O homem primitivo
consumia cerca de 2.000 kcal por dia por indivíduo, quantidade
mínima necessária à sua sobrevivência,
valor esse que se elevou para a ordem de 200.000 kcal por dia por
indivíduo contemporâneo.
A
oferta interna de energia no Brasil, de acordo com a Sinopse do
Balanço Energético Nacional publicado em 2000 - ano
base 1999, foi de 253,3 milhões de toneladas equivalentes
de petróleo, a saber:
|
Fontes
não-renováveis
|
|
|
Fontes
renováveis
|
|
|
Petróleo
e derivados
|
33,8%
|
|
Hidráulica
e eletricidade
|
38,1%
|
|
Gás
natural
|
3,0%
|
|
Lenha
e carvão vegetal
|
8,4%
|
|
Carvão
mineral e derivados
|
5,0%
|
|
Produtos
da cana
|
9,7%
|
|
Outras
|
0,5%
|
|
Outras
|
1,5%
|
|
Total
|
42,3%
|
|
Total
|
57,7%
|
Os
combustíveis líquidos do petróleo utilizados
nas indústrias, geralmente óleos combustíveis
pesados, concorrem de forma significativa para a deterioração
do meio ambiente devido a vários fatores como: dificuldade
de se manter as condições ideais para atomização
e presença de elementos como o enxofre e alguns metais, mesmo
em pequenas percentagens, como vanádio, níquel, sódio
e ferro.
Combustão
e Meio Ambiente
Os
combustíveis derivados do petróleo são constituídos
basicamente por 3 elementos: carbono, hidrogênio e enxofre.
E para a queima desses combustíveis é necessária
a participação de oxigênio, geralmente fornecido
pelo ar atmosférico que apresenta a seguinte composição
volumétrica:
1.
oxigênio
= 20,9%
2.
nitrogênio = 78,1%
3.
argônio = 0,9%
4.
outros = 0,1% (ar seco, ao nível do mar)
Para
fins práticos, considera-se o ar como uma mistura de 21%
de oxigênio com 79% de nitrogênio.
A
combustão dos derivados de petróleo pode ser sintetizada
pelas seguintes reações:
|
C
|
+
|
½
O2
|
=>
|
CO
|
|
CO
|
+
|
½
O2
|
=>
|
CO2
|
|
H2
|
+
|
½
O2
|
=>
|
H2O
|
|
|
|
|
|
|
|
S
|
+
|
OX
|
=>
|
SOX
|
|
|
|
|
|
|
|
N
|
+
|
OX
|
=>
|
NOX
|
|
(o
N2 pode vir
do ar atmosférico ou do combustível)
|
Os
principais efeitos dos combustíveis e produtos de sua combustão
no meio ambiente são os seguintes:
1.
Chuva
ácida, causada pela formação de SO2,
SO3, CO2, N2O
e NO => NO2.
2.
Aquecimento global, causado pelo efeito estufa oriundo do CO2,
N2O e CH4 (metano não-queimado).
3.
Neblina que irrita os olhos, causada pela foto oxidação
dos vapores dos hidrocarbonetos não-queimados em presença
de NO2 e da luz solar.
4.
Toxidez, causada pelo CO, SO2, SO3,
NO2 e vapores de hidrocarbonetos não-queimados.
5.
Aumento de material particulado na atmosfera devido à emissão
de fuligem (carbono não-queimado).
A
emissão de produtos incompletos da combustão para
a atmosfera, como vapores de hidrocarbonetos, monóxido de
carbono e fuligem, está associada a condições
inadequadas de combustão como:
1.
Baixa turbulência, ou seja, insuficiente superfície
de contato entre o combustível e o comburente, como ocorre
em uma má atomização do óleo combustível.
2.
Baixo tempo de residência da mistura combustível-comburente
nas condições de ignição.
3.
Rápida queda da temperatura da chama, antes que a queima
seja completa, fenômeno esse que é chamado "congelamento
da chama".
4.
Insuficiência de comburente, também chamada de mistura
rica.
Já
a formação de NOX está
relacionada com o uso do ar atmosférico (comburente), como:
1.
Mistura pobre (excesso de ar de combustão elevado).
2.
Tempo de residência elevado em condições de
ignição.
3.
Alta turbulência.
4.
Chama e processo de alta temperatura.
As
condições ideais da combustão são aquelas
em que o excesso de ar de combustão é o mínimo
necessário para garantir a queima completa do combustível.
Assim, a eficiência de combustão é maximizada,
reduzindo a formação dos produtos da combustão:
CO2, H2O, SOX
e NOX.
Óleos
Combustíveis
Os
principais tipo de óleos combustíveis utilizados nas
indústrias são os óleos residuais do refino
do petróleo, os quais são classificados de acordo
com o teor de enxofre (alto e baixo) e com a viscosidade. Existe
também o consumo de combustíveis leves como o diesel
e o querosene em menor escala.
A
queima de um óleo combustível exige sua atomização,
que consiste em dividir seu fluxo em minúsculas partículas,
favorecendo a passagem para o estado gasoso e subseqüente craqueamento
de suas moléculas para a reação de combustão.
Para dar uma idéia, uma boa atomização significa
dividir 1 cm³ de óleo combustível em 10 milhões
de partículas. Esta não é uma tarefa fácil
de ser mantida ao longo do tempo nas condições ótimas.
Qualquer desvio irá causar uma má combustão,
com baixa eficiência e contaminando mais ainda o meio ambiente.
A atomização de óleos residuais exige seu preaquecimento
para tornar a viscosidade adequada a cada tipo de queimador.
Os
óleos combustíveis apresentam muitos inconvenientes
com respeito às suas emissões:
1.
A presença de enxofre e vanádio no óleo, em
maior ou menor proporção, gera chuva ácida
ao meio ambiente e também corrosão nos equipamentos
térmicos e seus periféricos.
2.
O excesso de ar de combustão, da ordem de 20%, necessário
para promover a queima dos óleos combustíveis, acaba
por gerar óxidos de nitrogênio (NOX),
cuja formação é significativamente aumentada
nos processos térmicos de alta temperatura.
3.
A dificuldade de ignição, quando a câmara de
combustão está fria, concorre para a emissão
de fuligem, principalmente no caso de óleos residuais.
4.
A exigência freqüente de manutenção geralmente
causa dois tipos de problema: derrame de óleo e uso de solventes
para limpeza de todos os componentes, cujos resíduos quase
sempre são lançados no meio ambiente.
5.
Caso não se observe uma manutenção freqüente
como limpeza de bicos e demais acessórios, e também
a adequada regulagem da proporção ar-óleo,
haverá certamente um excesso de emissões de fuligem
e monóxido de carbono nos produtos da combustão; além
disso, a reduzida eficiência térmica nessas condições
exigirá um maior consumo de óleo combustível.
Outros
custos indiretos da utilização de óleos combustíveis
na indústria são o bombeio e o aquecimento no caso
de óleos residuais, onde todo o sistema deve ser mantido
aquecido, desde os tanques de armazenagem, bombas, tubulações,
tanques de trabalho, painéis de fluxo e queimadores.
Gases
Combustíveis
Os
gases combustíveis mais utilizados no Brasil são o
GLP e o gás natural.
A
queima dos gases é muito mais fácil do que a dos óleos
combustíveis, pois já se encontram no estado gasoso
e não necessitam a tarefa da atomização. A
mistura de um gás combustível com qualquer comburente
(ar atmosférico, ar enriquecido com oxigênio ou oxigênio
puro) se processa rápida e eficientemente, onde o resultado
da queima adequada é a limpeza dos produtos da combustão.
Uma
grande vantagem do GLP e do gás natural em relação
aos óleos combustíveis, decorrente da limpeza dos
produtos da combustão, é a possibilidade de queimar
esses gases em contato direto com o produto a aquecer, nos casos
onde isto não seja possível de ser feito com óleo.
Por exemplo, quando os produtos são gêneros alimentícios,
é necessário confinar os gases da queima de óleo
dentro de tubos radiantes ou muflas para evitar a contaminação
do alimento ou de sua embalagem. Assim, a conversão de óleos
combustível por GLP e GN, permite a eliminação
das superfícies de troca térmica, aumentando significativamente
a eficiência energética do processo e reduzindo o consumo
específico de combustível na faixa de 20 a 30%. Conseqüentemente
haverá também redução das emissões
de CO2 , contribuindo para a redução
do efeito estufa. Essa otimização da eficiência
energética freqüentemente possibilita o aumento da produtividade
do equipamento térmico.
Outras
vantagens dos gases combustíveis são as possibilidades
de controlar a atmosfera do equipamento térmico e de proporcionar
uma fina regulagem de temperatura. O GLP e o gás natural
tornam possível ainda a geração de atmosferas
neutras ou redutoras com ausência de fuligem, o que é
impossível quando utilizamos óleos combustíveis.
Essas características permitem a proteção contra
a oxidação.
Além
disso, o baixo nível de excesso de ar de combustão
contribuirá significativamente para a redução
da formação de NOX e em particular
do NO2, como indica o quadro abaixo.
|
Emissões
de NO2 oriundas de combustíveis
|
| Fontes |
106
t NO2
|
/
|
ano
%
|
|
| Queima
de carvão |
26,9
|
|
50,8
|
|
| Queima
de óleos combustíveis |
14,1
|
|
26,7
|
|
| Queima
de gasolina |
7,5
|
|
14,2
|
|
| Queima
de gás natural |
2,1
|
|
4,0
|
|
| Queima
de outros combustíveis |
1,6
|
|
3,0
|
|
| Refino
do petróleo |
0,7
|
|
1,3
|
|
| Total
=> |
52,9
|
|
100,0
|
|
Outra
vantagem para o meio ambiente é a menor geração
de CO2 por caloria de gás queimado,
devido a relação carbono / hidrogênio ser maior
nos óleos do que nos gases combustíveis, além
de serem praticamente isentos de enxofre conforme mostra o quadro
a seguir.
Obs.:
as eficiências de combustão não foram consideradas,
pois são particulares a cada caso.
|
Emissões
de CO2 e SO2
|
|
Combustível
|
%C
|
Nm³
CO2/106
kcal
|
|
%S
|
Nm³
SO2/106
kcal
|
|
Óleo
residual baixo S
|
87,0
|
165,0
|
|
1,0
|
1,0
|
|
Querosene
|
87,5
|
165,9
|
|
0,1
|
0,1
|
|
Óleo
residual alto S
|
84,4
|
159,9
|
|
4,0
|
3,1
|
|
Óleo
diesel
|
86,3
|
159,0
|
|
1,0
|
1,0
|
|
GLP
|
82,2
|
144,0
|
|
aprox.
0
|
aprox.
0
|
|
Gás
natural
|
75,7
|
105,0
|
|
aprox.
0
|
aprox.
0
|
O
GLP e o gás natural proporcionam ainda uma alta confiabilidade
operacional, evitando paradas para manutenção e suas
conseqüências como perdas de produção,
resfriamento e reaquecimento improdutivo.
Outro
fato que, às vezes, gera polêmica quando se discute
a substituição do óleo por gás combustível
é o problema da radiação da chama. Não
há dúvida que a chama oriunda da queima de óleo
seja mais radiante que a chama dos gases combustíveis. Porém,
na maioria dos processos não são constatados problemas
com a transferência de calor global. A menor liberação
de energia na fase radiativa pode ser compensada na fase convectiva
do processo, exigindo às vezes alguns ajustes no equipamento.
Conservação
de Energia
Independentemente
do energético utilizado, existem muitas possibilidades para
reduzir o impacto ambiental da queima de combustíveis, todas
elas ligadas a medidas de conservação de energia:
Controle
da Combustão e da Tiragem
O
controle é feito através da análise dos produtos
da combustão, monitorando os teores de O2,
CO2, CO e carbono não queimado. Através
do controle da tiragem é possível regular a pressão
interna do equipamento térmico, evitando a perda de gases
quentes e a entrada de ar frio do ambiente.
Basicamente
a otimização da combustão resume-se em minimizar
o excesso de ar de combustão sem a presença significativa
de frações combustíveis, sendo percebida pelo
aumento do teor CO2 e pela diminuição
do teor de O2 na análise dos produtos
da combustão. Benefícios imediatos para o meio ambiente:
redução das emissões totais de CO2
e de NOX devido ao mínimo excesso de
ar.
Preaquecimento
do Ar de Combustão
O
preaquecimento do ar de combustão é uma medida que
proporciona significativa economia de combustível, principalmente
em processos térmicos de alta temperatura. Este preaquecimento
pode ser feito através de recuperadores ou de regeneradores.
Portanto, sob o ponto de vista da emissão de CO2, esta medida
contribui para sua redução por diminuir a quantidade
de combustível queimado.
Porém,
por outro lado, aumenta o potencial para formação
de NOX devido à elevação
da temperatura da chama. Também neste caso, a utilização
de gás natural e GLP contribui significativamente para a
redução do NOX, devido ao baixíssimo
nível de excesso de ar de combustão exigido.
Outros
sistemas de combustão e controle foram desenvolvidos para
reduzir a formação de NOX, como
a recirculação dos produtos da combustão, a
combustão estagiada e a recirculação interna
da atmosfera da câmara de combustão no sentido da chama.
A filosofia dos métodos para reduzir a formação
de NOX baseia-se na redução
do excesso de ar de combustão, no rápido resfriamento
da chama no interior da câmara de combustão, sem entretanto
contribuir para a formação de produtos da combustão
incompleta.
Uso
de Oxigênio na Combustão
As
principais metodologias para aplicação do oxigênio
são as seguintes:
1.
Enriquecimento do ar de combustão por diluição,
onde o oxigênio é misturado na corrente de ar do queimador,
elevando o teor de 20,9% a até 24 - 25% O2.
2.
Enriquecimento do ar de combustão por injeção
através de lança, onde o oxigênio é insuflado
diretamente na chama, também em baixas porcentagens em relação
ao ar.
3.
Oxi-combustão, onde a queima do combustível é
feita com oxigênio puro, onde queimadores especiais são
necessários (refrigerados a água, refrigerados a oxigênio
ou cerâmicos).
O
uso de oxigênio reduz o consumo de combustíveis em
até 60%, dependendo do processo e da tecnologia empregada,
diminuindo significativamente as emissões.
No
caso de oxi-combustão, não existe nitrogênio
no comburente. Assim os efluentes da combustão estariam totalmente
isentos de NOX caso sejam atendidas ainda
as seguintes condições:
1.
A câmara de combustão seja mantida com uma pressão
ligeiramente positiva para evitar a infiltração do
ar ambiente, que introduziria nitrogênio no processo.
2.
Não exista nitrogênio no combustível, onde o
GLP leva uma pequena vantagem em relação ao GN.
3.
Não haja nenhuma outra fonte que arraste nitrogênio
para o equipamento térmico.
Satisfeitas
as condições anteriores, a combustão oxigênio-gás
em processos de alta temperatura, em substituição
da queima convencional ar-óleo, proporciona enormes vantagens
para o meio ambiente como a eliminação do SOX
e do NOX, além da significativa redução
em até 60% das emissões de CO2.
Conclusões
O
uso do GLP e do gás natural em substituição
aos óleos combustíveis proporciona, sem nenhuma dúvida,
a redução do impacto ambiental relativo à utilização
desses energéticos. É possível reduzir as emissões
de CO, CO2, NOX e fuligem,
além de eliminar as emissões de SOX.
Porém,
infelizmente, nem todos os problemas podem ser resolvidos em definitivo,
pois não há como eliminar a emissão de CO2.
Outro fato é que o eventual vazamento de metano (principal
componente do gás natural) para a atmosfera e sem queimar,
contribui para o efeito estufa com uma intensidade 20 vezes superior
à do CO2.
O
combustível que parece ser a solução ecológica
para o futuro é o hidrogênio, cujo produto da combustão
é o vapor d'água. Porém, no momento, sua utilização
esbarra em diversos problemas como custo de produção,
armazenagem e distribuição.
Em
todo o mundo, a energia e as matérias primas tornar-se-ão
cada vez mais escassas, tendo em vista o crescimento da demanda
per capita juntamente com a expansão demográfica.
As únicas alternativas para a construção de
um modelo sustentável a longo prazo incluem a limitação
da natalidade, a reciclagem radical, a mudança de hábitos
para um modelo não consumista, a conservação
dos recursos naturais e a utilização eficiente de
matérias primas e de energia não poluentes.
Bibliografia
1.
SEN - MME. Balanço Energético Nacional - Publicado
em 2000, referente ao ano base de 1999.
2. MINISTRY of Power. The Efficient Use of Fuel. London. Her Majesty's
Stationery Office. 1958. 888 p.
3. NORTH AMERICAN Mfg. Co. Combustion Handbook. Vol. 1. Third Edition.
Cleveland. 1986. 332 p.
4. AGA Aktiebolag. AGA Gas Handbook. Kersti Ahlberg. Lidingö,
Sweden. 1985. 582 p.
|
Gás
Natural e GLP: Combustíveis Seguros e Ecológicos |
| por
Fernando Costa© |
Introdução
A
demanda brasileira de energia continuará em expansão,
exigindo cada vez mais a disponibilidade de fontes primárias
de energia, como derivados de petróleo, energia hidráulica,
carvão e energia nuclear.
Todos
os energéticos relacionados com essas fontes primárias
apresentam, infelizmente, riscos à sociedade e ao meio ambiente.
E nem por isso deixaremos de utilizá-los. Nossa tarefa é
minimizar esses riscos através da seleção do
energético mais adequado e eficiente em cada caso, e da forma
mais segura de sua aplicação.
Estando
praticamente esgotado o potencial hidroelétrico para construção
de grandes usinas nas regiões mais industrializadas do país,
o gás natural e o GLP serão importantes opções
energéticas.
O
GLP já é e continuará sendo um combustível
com grande valor social agregado, possibilitando a expansão
demográfica e geográfica, minorando o comprometimento
da demanda de energia elétrica. Isso porque se todos os fogões
domésticos e industriais fossem elétricos, certamente
estaríamos passando por racionamento de eletricidade nos
grandes centros e por uma devastação das poucas matas
que ainda nos restam no interior.
O
gás natural é o energético que mais se desenvolverá
no centro-sul do país, em virtude do grande potencial disponível
através do gasoduto Brasil-Bolívia e da futura interligação
com a Argentina. Porém será impossível atender
à toda demanda apenas com o gás natural, devido aos
investimentos necessários em redes de distribuição,
razão pela qual a importância do GLP.
Gases
Combustíveis e Meio Ambiente
Além
do atendimento da demanda energética, a utilização
desses combustíveis gasosos pouco contamina o meio ambiente.
Além disso economizam a energia elétrica dos usuários,
dispensando o bombeio de combustíveis líquidos e o
aquecimento necessário à utilização
de óleos residuais.
O
gás natural e o GLP praticamente não apresentam emissões
de fuligem e de SO2, sendo baixas as emissões
de CO2, de CO e de NOX,
colaborando assim para a redução da chuva ácida,
do efeito estufa, dos gases tóxicos na atmosfera e do material
particulado em suspensão. O quadro abaixo mostra as emissões
de CO2 e SOX para os
principais combustíveis industriais, expressas em metros
cúbicos por milhão de quilocalorias queimadas, sendo
fácil perceber as vantagens do GLP e do gás natural
em relação aos demais combustíveis.
|
Combustível
|
%C
|
%S
|
Nm³
CO2/106
kcal
|
|
Óleo
residual baixo S
|
87,0
|
1,0
|
166,0
(*)
|
|
Querosene
|
87,5
|
0,1
|
166,0
(*)
|
|
Óleo
residual alto S
|
84,4
|
4,0
|
163,0
(*)
|
|
Óleo
diesel
|
86,3
|
1,0
|
160,0
(*)
|
|
GLP
|
82,2
|
aprox.
0
|
144,0
|
|
Gás
natural
|
75,7
|
aprox.
0
|
105,0
|
(*)
Inclui SOX.
Obs.:
As
eficiências de combustão não foram consideradas,
pois são particulares a cada caso; porém, com gás
natural e GLP, a tendência é que as eficiências
sejam um pouco mais elevadas em relação às
mesmas condições com óleos combustíveis.
Isso fará com que os resultados se tornem ainda mais favoráveis
à utilização desses gases combustíveis.
Segurança
nas Instalações
As
instalações para armazenagem, distribuição
e consumo de quaisquer combustíveis deverão sempre
inspirar cuidados. Porém, em se tratando de gases combustíveis,
os cuidados deverão ser redobrados devido à facilidade
de se expandirem e se misturarem com o comburente, normalmente o
ar atmosférico.
O
projeto, as especificações, a execução
e os testes das instalações para gases combustíveis
devem seguir obrigatoriamente às exigências mínimas
impostas pelas normas brasileiras da ABNT, às quais poderão
ser adicionadas exigências dos poderes públicos, de
acordo com as características locais. No caso da impossibilidade
do cumprimento das normas, a opção gás deverá
ser substituída por outro energético.
Porém,
no passado, algumas instalações foram feitas em desacordo
com as normas atualmente vigentes. E é comum ouvir a justificativa
da manutenção dessas instalações inseguras
sob o argumento do "direito adquirido". O autor costuma
dizer que fica "adquirido o direito a um possível acidente".
As
ocorrências mais importantes a serem evitadas nas instalações
de gás são:
1.
Misturas inflamáveis gás-ar ou gás-oxigênio.
2.
Fontes de ignição e de calor.
3.
Proximidade de comburentes e outros combustíveis.
4.
Pressões inadequadas.
As
misturas inflamáveis podem ocorrer em muitas situações,
sempre que houver fuga de gás para o ar atmosférico,
geralmente em conseqüência de:
1.
Vazamento.
2.
Abertura de dispositivos de segurança contra pressão
excessiva.
3.
Ruptura de diafragma de reguladores de pressão.
4.
Purga de tubulações, de mangueiras e em indicadores
de nível.
Nas
fugas de gás que ocorrem em ambientes abertos e bem ventilados,
como preconizam as normas, os riscos são mínimos.
Os gases combustíveis se diluem rapidamente na atmosfera
fazendo com que a mistura fique pobre em combustível e, portanto,
abaixo do limite inferior de inflamabilidade. Portanto, todas as
fontes de ignição e de calor, bem como comburentes
e outros combustíveis, devem ser afastados dessa área.
O
grande perigo na utilização de gases combustíveis
é o confinamento de misturas gás-ar ou gás-oxigênio
cujas proporções estejam dentro do campo de inflamabilidade.
Ocorrendo uma condição de ignição, a
mistura iria inflamar-se, provocando um incêndio ou uma explosão,
dependendo do grau de confinamento da mistura. Os campos de inflamabilidade
dos principais gases combustíveis são apresentados
nos dois quadros seguintes:
|
Campo
de inflamabilidade para misturas GÁS-AR
|
|
Gás
|
Limite
Inferior (%)
|
Limite
Superior (%)
|
|
Gás
Natural
|
5
|
15
|
|
GLP
|
1,8
- 2,8 (*)
|
8,4
- 9,5 (*)
|
|
Hidrogênio
|
4
|
74,5
|
|
Acetileno
|
2,2
|
80
- 85
|
(*)
Varia segundo a composição.
No
quadro acima, vemos que o gás natural e o GLP são
os gases combustíveis mais seguros, pois apresentam um campo
de inflamabilidade significativamente mais restrito do que o hidrogênio
e o acetileno.
O
limite inferior de inflamabilidade da mistura gás natural-ar
é de 5%, o que significa 5% de gás natural em 95%
de ar. E o limite superior dessa mesma mistura é de 15%,
ou seja, 15% de gás natural em 85% de ar. Somente dentro
desse campo de inflamabilidade, entre 5% e 15% de gás natural
em 95% e 85% de ar respectivamente, haveria a possibilidade da mistura
se inflamar. Abaixo do limite inferior de inflamabilidade a mistura
é pobre em combustível e não se inflama, o
que também ocorre acima do limite superior de inflamabilidade
onde a mistura é rica.
|
Campo
de inflamabilidade para misturas GÁS-OXIGÊNIO
|
|
Gás
|
Limite
Inferior (%)
|
Limite
Superior (%)
|
|
Gás
Natural
|
5
|
60
|
|
GLP
|
1,8
- 2,3 (*)
|
40
- 45 (*)
|
|
Hidrogênio
|
4
|
94
|
|
Acetileno
|
2,8
|
93
|
(*) Varia segundo a composição.
Os
valores indicados nos dois quadros acima são válidos
para misturas na temperatura ambiente de 20ºC e na pressão
atmosférica. Esses valores praticamente não variam
para outras temperaturas ambientes existentes no Brasil.
Já
as misturas gás-oxigênio puro (quadro imediatamente
acima) apresentam um campo de inflamabilidade muito mais extenso
do que com o ar atmosférico, aumentando portanto o risco.
Porém, cuidados especiais como a utilização
de válvulas contra retrocesso de chama e outros dispositivos
de segurança restringem imensamente as possibilidades de
ocorrer problemas.
Para
que uma mistura dentro do campo de inflamabilidade venha a se inflamar,
é necessário que esteja presente uma condição
de ignição, como uma faísca gerada por atrito
ou eletricidade, chama ou temperatura acima do limite mínimo
de auto ignição. As
temperaturas mínimas de auto ignição para os
gases combustíveis mais comuns, na pressão atmosférica,
podem ser observadas no quadro abaixo:
|
Temperatura
mínima de AUTO-IGNIÇÃO
|
|
Gás
|
com
ar
|
com
oxigênio puro
|
|
Gás
Natural
|
580ºC
|
555ºC
|
|
GLP
|
420º
- 480ºC (*)
|
285º
- 470ºC (*)
|
|
Hidrogênio
|
570ºC
|
560ºC
|
|
Acetileno
|
305ºC
|
296ºC
|
(*)
Varia segundo a composição.
Isso
significa que uma mistura de um gás combustível com
um comburente poderá se inflamar, apenas por estar submetida
a uma temperatura a partir dos valores indicados no quadro acima,
sem a necessidade de uma centelha ou chama aberta.
Purga
de Tanques e Tubulações
Os
tanques e tubulações destinados aos gases combustíveis
devem observar importantes requisitos de segurança nas operações
de purga.
As
purgas podem ser de dois tipos:
1.
Purga do ar contido no interior do equipamento para admissão
do gás.
2.
Purga do gás contido no interior do equipamento para admissão
do ar.
Em
ambas as situações, a purga deverá ser feita
com um gás inerte, geralmente nitrogênio ou CO2
(gás carbônico). Isso porque, se a purga do ar fosse
feita diretamente com o gás combustível, ou vice-versa,
haveria um momento de risco quando a mistura atravessasse o campo
de inflamabilidade. O acidente ocorreria caso houvesse nesse momento
uma condição de ignição no equipamento,
por exemplo uma fagulha oriunda do deslocamento de uma partícula
no seu interior.
A
forma segura de se purgar o ar do interior de um equipamento é
com a introdução do gás inerte e a análise
do teor de oxigênio na mistura ar + gás inerte na saída
do equipamento, até que o oxigênio seja quase que totalmente
eliminado. O teor final de oxigênio dependerá das propriedades
do gás combustível a ser admitido. A redução
do teor de oxigênio a zero implicaria num consumo desnecessariamente
excessivo do gás inerte, elevando o custo e o tempo da operação.
Então, a partir daí o gás combustível
começará a ser admitido no equipamento, liberando-se
para a atmosfera uma mistura do gás inerte com o gás
combustível, até que o gás inerte tenha sido
expulso. Como não se deve liberar gás combustível
para a atmosfera, nessa etapa será necessário queimar
a mistura efluente do equipamento em um "flare". O "flare"
é um queimador provido de um piloto continuamente aceso para
garantir a queima do gás combustível ao ar livre e
em local seguro (ver
foto de um "flare móvel" em funcionamento).
A
purga de tubulações ou tanques cheios de gás
combustível deve ser feita com gás inerte de forma
análoga. Porém o parâmetro de controle é
a análise do teor de gás combustível na mistura
gás combustível + gás inerte na saída
do equipamento. O teor final de gás combustível também
dependerá das propriedades de cada gás. Da mesma forma,
o efluente dessa purga também será queimado no "flare".
Após o final da purga, o gás inerte será purgado
com ar atmosférico. No caso de tanques grandes, onde será
necessária a entrada de pessoal para sua manutenção,
o teor final de oxigênio no interior do equipamento deverá
ser rigidamente controlado para evitar asfixia.
Sistemas
de Combustão a Gás
Os
sistemas de combustão a gás para equipamentos industriais
e comerciais, com potência térmica superior a 120 kW,
devem atender aos requisitos mínimos das normas da ABNT,
no que diz respeito à segurança nas operações
de partida e parada dos queimadores.
Caso
a temperatura normal de trabalho do equipamento seja insuficiente
para promover a ignição do combustível, isto
é, abaixo de 750ºC nas superfícies internas da
câmara de combustão, a norma a ser cumprida é
a NBR 12313 (baixa temperatura).
No caso da temperatura normal de trabalho ser suficiente para garantir
a ignição do combustível, quer dizer igual
ou superior a 750ºC, deverá ser atendida a norma NBR
13226 (alta temperatura).
As
referidas normas não se aplicam a queimadores de aparelhos
domésticos, nem a queimadores cujas chamas não estejam
confinadas total ou parcialmente.
Os
principais assuntos abordados pelas normas são: as definições
da terminologia utilizada, as condições de suprimento
do gás, do ar de combustão e de eletricidade, os requisitos
do sistema e os diagramas de blocos típico de seqüência
de partida e parada, e do ensaio de comprovação da
estanqueidade.
Conclusões
O
gás natural e o GLP são fontes de energia eficientes,
limpas e ecológicas. A exemplo dos países do primeiro
mundo, sua participação na matriz energética
brasileira deverá tornar-se significativa nos próximos
anos, principalmente com a disponibilidade do gás da Bolívia
e, um pouco mais adiante, do gás da Argentina.
Os
riscos inerentes à sua utilização podem ser
reduzidos ao mínimo com o atendimento às normas estabelecidas,
as quais nada deixam a desejar com relação às
normas vigentes nos países mais desenvolvidos.
E
para o futuro poderíamos prever a utilização
do único combustível 100% ecológico, que é
o hidrogênio, cuja combustão gera apenas vapor de água.
Porém muitas dificuldades deverão ainda ser vencidas
como custo de produção, armazenagem e transporte,
antes de se cogitar na sua utilização em larga escala.
Além disso, trata-se de um gás de alta velocidade
de chama e amplo campo de inflamabilidade, o que lhe caracteriza
como um gás perigoso e cuja utilização exige
o cumprimento de normas de segurança muito exigentes.
A
chegada do gás natural da Bolívia veio exacerbar a
cultura do gás, principalmente nas regiões sudeste
e sul do Brasil, o que já era esperado.
Nos
últimos anos, a expectativa do gás boliviano foi o
fator preponderante para o desenvolvimento de novos consumidores
de GLP, notadamente na área industrial, devido a dois motivos:
por um lado, as distribuidoras de GLP se esforçavam para
aumentar sua participação no mercado antes que o gás
natural estivesse disponível; por outro lado, os clientes
queriam passar pela iniciação da nova cultura do gás.
Além disso, a maioria dos novos investimentos em equipamentos
térmicos pressupunham o consumo inicial de GLP, devido à
sua fácil conversão a curto ou médio prazo
para o gás natural e com sua atrativa relação
custo-benefício. Nesse benefício se destacam o baixo
nível de agressão ao meio ambiente, um melhor controle
do processo e o custo mínimo de manutenção.
Porém,
atualmente, com os elevados e sucessivos aumentos no preço
do GLP, a credibilidade no gás tem sido colocada seriamente
em dúvida, principalmente por parte dos clientes potenciais
de gás natural. Muitos projetos de conversão têm
sido postergados, tanto de óleo combustível quanto
de energia elétrica para gás, alguns devido ao custo
atual do GLP e outros pelas incertezas do custo futuro do gás
natural.
As
perguntas mais comuns por parte das indústrias que agora
postergam a decisão de converter seus equipamentos para gás
são:
1.
Será que daqui a algum tempo o preço do gás
natural será significativamente aumentado, a exemplo do que
ocorre com o GLP nos dias de hoje?
2.
Vale a pena investir na conversão?
3.
Haverá garantia de retorno do investimento?
Atualmente,
várias empresas que já estavam consumindo GLP enquanto
aguardavam o gás natural, após passarem pelo processo
de conversão, voltaram a reativar seus sistemas de óleo
combustível, principalmente aquelas cujos produtos são
de baixo valor agregado e não puderam suportar os aumentos
do GLP, apesar do excelente desempenho verificado com o gás.
Dentre as alternativas mais estudadas no momento por essas indústrias,
encontramos, além dos óleos residuais, o óleo
de xisto e até mesmo o etanol, de acordo com a disponibilidade
local, ficando a opção dos gases combustíveis
relegada a um segundo plano.
Portanto,
em minha opinião, acredito que os aumentos praticados no
preço do GLP estão causando danos irreparáveis
à credibilidade dos gases combustíveis como um importante
vetor energético, economicamente viável e ecologicamente
correto, dado que só compactua para reduzir ainda mais as
chances futuras de um Brasil próspero.
Na
área comercial, as empresas geralmente valorizam muito a
conquista de novos clientes. Os fechamentos de novos contratos costumam
ser comemorados e o pessoal envolvido recebe o reconhecimento da
empresa, o que é traduzido por elogios, prêmios, comissões,
promoções etc.
Porém,
pouquíssimas distribuidoras de GLP incentivam e direcionam
seus esforços para o mercado existente dentro dos seus próprios
clientes, cujo potencial normalmente é relegado a segundo
plano em detrimento à busca de novos clientes.
Em
minhas visitas a mais de uma centena de indústrias a cada
ano, as quais já dispõem de centrais de armazenagem
e redes internas de GLP, é sempre possível identificar
novas possibilidades para aumentar o consumo de gás. Os novos
potenciais são muitos e a equipe de comercialização
deve estar preparada para identificá-los, desde um simples
aquecimento de água nos vestiários até as mais
inusitadas aplicações do GLP na produção,
como a substituição de tradicionais lubrificantes
e desmoldantes para altas temperaturas.
A
prática do crescimento vertical, dentro dos próprios
clientes, proporciona muitas vantagens para as distribuidoras de
gás, como:
1.
Baixo nível de investimento: geralmente não se necessita
aumentar a central de armazenagem nem construir significativas redes
internas.
2.
Rápido início de consumo.
3.
Inexistência da burocracia das aprovações nos
órgãos públicos, como Corpo de Bombeiros e
Meio Ambiente.
4.
Possibilidade de realizar testes de avaliação sem
o ônus de se montar uma instalação, ainda que
provisória.
5.
Não haver necessidade do desgaste de uma negociação
comercial, não existindo disputa com a concorrência.
Além
do consumo adicional, a aproximação expontânea
da distribuidora de GLP com seus clientes cria e transforma os vínculos
comerciais em amizade, tornando a relação fornecedor-comprador
numa parceria na medida em que as novas aplicações
do gás conseguem agregar valores aos produtos como qualidade,
economia, produtividade e ecologia.
Embora
algumas vezes a iniciativa parta dos clientes, a distribuidora de
gás deveria sempre comandar as ações através
das suas equipes técnica e comercial, com funcionários
próprios ou terceiros, desde que adequadamente treinados.
As
possibilidades em se identificar novas aplicações
para o GLP nas indústrias são inúmeras, como
mostram os seguintes exemplos: a substituição parcial
ou total de energia elétrica, nosso energético de
disponibilidade mais crítica, em fornos; a substituição
de combustíveis líquidos, proporcionando melhorias
para o meio ambiente; a modificação de processos de
chama indireta a óleo para chama direta a GLP, com significativa
economia de combustível; a instalação de queimadores
auxiliares ("boosters") para aumentar a produtividade
dos processos; e o desenvolvimento de maçaricos projetados
sob medida para os mais diversos fins como têmpera a chama,
acabamento de vidro e cristal, oxi-corte e desmoldagem de lingoteiras.
Finalizando,
cabe ressaltar que o universo das aplicações industriais
dos gases combustíveis até parece ser infinito pois,
quanto mais se pesquisa e desenvolve, mais possibilidades despontam.
O
novo patamar de preços do GLP, em relação há
um ano atrás, tem causado um grande transtorno principalmente
nas aplicações industriais. Algumas indústrias
até já abandonaram o uso do gás para retornar
ao óleo combustível. Porém, todos que usam
ou usaram GLP têm um ponto de vista em comum: é um
excelente combustível sob todos os pontos de vista.
Na
maioria dos casos, onde os consumidores deste gás começaram
a sofrer com a dificuldade ou a impossibilidade de repassar os sucessivos
aumentos para os preços dos produtos, a primeira alternativa
estudada foi a redução do consumo de GLP através
de medidas de conservação de energia. E a prática
tem mostrado que, apesar destas medidas dificilmente conseguirem
reduzir os valores despendidos com a compra do gás aos patamares
anteriores, ainda assim a maioria dos consumidores que obtiveram
alguma economia prefere continuar consumindo o GLP.
A
conservação de energia pode ser definida como um conjunto
de técnicas que têm por objetivo aumentar a eficiência
do uso de um energético, neste caso o GLP, através
da redução de suas perdas. As filosofias básicas
empregadas nas técnicas de conservação são:
1.
redução da energia perdida nos gases de exaustão;
2.
redução das perdas térmicas nas estruturas
dos equipamentos;
3.
recuperação do calor contido no produto;
4.
alteração do processo com a adoção de
novas tecnologias;
5.
aumento da produtividade.
Sob
o ponto de vista econômico, podemos classificar estas técnicas
segundo o nível de investimento exigido: mínimo, médio
ou elevado.
As
principais técnicas de conservação de energia
que exigem um mínimo custo de investimento são:
1.
controle da combustão, onde a regulagem dos queimadores é
feita através da análise dos produtos da combustão;
2.
controle da tiragem do equipamento térmico, de forma a exaurir
adequadamente os produtos da combustão, evitando tanto a
perda excessiva de gases quentes como a entrada de ar frio;
3.
instalação de meios que possibilitem aos operadores
reproduzir as condições ideais de regulagem dos queimadores,
ainda que sejam dispositivos simples como válvulas de controle
do fluxo de ar com graduação, rotâmetros no
fluxo de gás e "dampers" na tiragem;
4.
abafamento dos fornos, fechando todas as suas aberturas imediatamente
ao final da jornada de trabalho para que, ao reiniciar o trabalho
no dia seguinte exija menor consumo de GLP na etapa de reaquecimento;
5.
mudança de procedimentos, como reduzir a abertura de portas,
tanto em número de vezes como em tempo e em amplitude; evitar
perda de tempo minimizando os tempos mortos entre descarga e carregamento
de fornos, etc.;
6.
alteração de regime de trabalho diurno para a modalidade
de campanha, quando possível, de forma que equipamentos térmicos
possam trabalhar continuamente (24h/dia) por determinado período,
minimizando o consumo de gás e, em processos de alta temperatura,
aumentando a vida do refratário.
Outras
técnicas de conservação de energia que já
exigem um nível médio ou elevado de investimento são:
1.
monitoramento contínuo através da análise dos
produtos da combustão e correção automática
da relação gás - comburente;
2.
preaquecimento do ar de combustão, aproveitando-se o calor
residual dos gases na exaustão através da instalação
de recuperadores ou regeneradores de calor;
3.
substituição de queimadores por modelos mais eficientes
que possibilitem melhor transferência de calor para a carga,
por apresentarem formato mais adequado da chama, baixíssimo
nível de excesso de ar ou pelo uso do oxigênio como
comburente;
4.
aproveitamento dos gases quentes da exaustão de fornos como
meio de secagem, preaquecimento de carga ou ainda geração
de água quente, vapor ou fluido térmico em caldeiras
de recuperação;
5.
melhorias no isolamento térmico como a adoção
de fibras cerâmicas em fornos cíclicos ou isolamento
da superfície de banhos aquecidos com esferas flutuantes;
6.
mudança de "layout" da planta para evitar perdas
ou facilitar o reaproveitamento de calor a partir dos gases de exaustão
ou do calor contido nos produtos;
7.
fechamento de ambientes para evitar a ação de vento
e outras intempéries sobre os equipamentos térmicos,
a fim de reduzir as perdas térmicas superficiais;
8.
substituição de equipamentos que apresentem maior
produtividade ou economia de escala, como a substituição
de pequenos fornos de fusão por um equipamento de maior porte
ou ainda substituindo fornos cíclicos por fornos contínuos.
A
adoção de técnicas para conservação
de energia, além da redução do consumo específico
de GLP, freqüentemente possibilita alcançar outros benefícios
importantes.
Por
exemplo, nos fornos de reaquecimento de peças de aço
carbono em forjarias, a redução do excesso de ar de
combustão a níveis mínimos e a regulagem da
tiragem podem reduzir significativamente a formação
de carepas, melhorando a qualidade do produto e baixando custos
da matéria prima. Outro exemplo seria a substituição
dos queimadores no aquecimento das esteiras transportadoras nos
fornos Lehr, reduzindo as perdas das peças de vidro por quebra
devido ao choque térmico e melhorando o ambiente de trabalho
devido a menor liberação de calor e monóxido
de carbono.
É
verdade que as técnicas de conservação de energia
podem ser aplicadas não somente ao GLP, mas também
ao gás natural, óleo combustível e demais energéticos.
A
experiência vem mostrando que os consumidores de GLP, provavelmente
situados fora da área do gás natural, ainda preferem
continuar com o gás liquefeito em vez de voltar ao óleo
combustível, quando medidas de conservação
de energia conseguem reduzir seu consumo específico, mesmo
que o custo direto da opção óleo ainda seja
mais barato.
Alguns
processos térmicos exigem o contato direto da chama com o
objeto a aquecer, como no acabamento de artigos de vidro.
Esse
tipo de processo necessita de chamas com características
bem definidas, como estabilidade de forma, de temperatura e de potência,
além da garantia da composição e da limpeza
dos produtos da combustão. Tais motivos exigem que os combustíveis
usados devam ser gases que cumpram estes requisitos, como o GLP,
o gás natural e o hidrogênio. Por outro lado, o comburente
pode ser ar atmosférico, oxigênio puro ou ar enriquecido
com oxigênio.
As
principais aplicações são o corte, o acabamento
de borda e o polimento lateral dos artigos de vidro. Em geral, essas
aplicações são feitas imediatamente após
a moldagem, com as peças apresentando ainda uma significativa
temperatura residual.
O
corte e o acabamento de peças de seção circular,
como copos e taças, é feito através de queimadores
também circulares com a chama dirigida ao centro. As peças
são posicionadas concentricamente no seu interior, permanecendo
girando, até que o corte e posterior acabamento se completem.
Neste processo, realizado em estações fixas ou em
carrosséis, são habitualmente utilizados GLP e gás
natural com oxigênio.
Existe
também um processo de corte de seções circulares
por choque térmico, onde as peças, na temperatura
ambiente, são submetidas a uma chama de baixíssima
potência, aquecendo apenas a linha de corte, sobre um ponto
da qual se encosta uma ponta metálica fria. Neste caso, o
posterior acabamento da borda, quando feito por queimadores, deverá
considerar o gradiente de temperaturas que as peças possam
suportar para evitar perdas por quebra.
O
acabamento de borda em peças prensadas é feito em
requeimadeiras fixas, onde os queimadores são estacionários
e as peças se deslocam sobre bases giratórias, proporcionando
aquecimento e conseqüente acabamento uniforme. As bordas são
levadas ao ponto de amolecimento, fazendo com que as marcas das
superfícies de fechamento dos moldes seja desfeita pelo fenômeno
da tensão superficial do vidro que se comporta como um líquido
de alta viscosidade. Dependendo da forma, a velocidade de rotação
das peças deverá ser controlada para evitar deformações
no entorno das partes aquecidas.
As
peças prensadas com formato não-circular a serem requeimadas,
como travessas ovais, exigem queimadores montados sobre suportes
móveis que deslizam sobre gabaritos, de modo a manter uma
distância aproximadamente constante com as bordas das peças.
Peças de formas muito irregulares, como retângulos
e estrelas, geralmente necessitam de montagens especiais ("tailor
made") para sua requeima.
Dependendo
do tipo de vidro e de sua espessura, do espaço físico
disponível e do custo dos gases, a requeima de borda pode
ser feita com GLP ou gás natural, queimando tanto com ar
quanto com oxigênio puro ou, ainda, com ar enriquecido com
oxigênio. A opção pela requeima com oxigênio
puro proporciona significativa economia do gás combustível
(da ordem de 50%), possibilitando, ainda, executar este serviço
com a qualidade exigida em um tempo menor, o que se torna muito
importante quando a distância entre a moldagem e o forno de
tratamento térmico (Lehr) for insuficiente para a requeima
com ar.
No
caso da queima do gás com oxigênio puro, podem ser
utilizados queimadores de pré-mistura, com a opção
de serem refrigerados à água quando ocorrer uma excessiva
transmissão de calor sobre os queimadores, devido ao seu
posicionamento ou quando o ambiente da requeima seja parcialmente
confinado. Outra opção para a queima com oxigênio
puro seriam os queimadores de mistura na face, os quais são
especialmente indicados quando se necessita garantir uma atmosfera
oxidante, como no caso dos cristais ligados com óxidos de
chumbo ou de titânio, não havendo risco de reduzir
tais óxidos nem de ocorrer um retrocesso de chama.
Outro
tipo de acabamento nos artigos de vidro é o polimento lateral,
que tem por objetivo aumentar a intensidade do brilho e remover
pequenos defeitos superficiais. Este polimento é, geralmente,
realizado em peças que apresentam maior valor agregado, como
frascos para perfumes e cosméticos ou artigos de cristaleria.
Neste tipo de tratamento por chama, o vidro não pode ser
levado ao estado pastoso, pois sua forma sofreria uma deformação
permanente. O polimento é obtido por um efeito similar à
abrasão pela passagem da chama em alta velocidade na superfície
das peças, no tempo mínimo necessário à
realização do trabalho para evitar deformações.
A
obtenção de chamas de alta velocidade para o processo
de polimento exige a utilização de queimadores especiais,
onde o gás combustível queima obrigatoriamente com
oxigênio puro. Existem casos onde torna-se necessário
trabalhar com gases combustíveis de alta velocidade como
o hidrogênio, misturas gás natural-hidrogênio
ou misturas GLP-hidrogênio. Além disso, os queimadores
devem ser projetados ou especificados para trabalharem muito próximo
de suas potências máximas, garantindo velocidades elevadas
nas superfícies submetidas ao polimento.
Assim,
concluímos que sempre haverá uma solução
ótima para realizar o acabamento de peças de vidro
com o uso de gases combustíveis, associada ou não
com o oxigênio, através de queimadores de produção
seriada ou desenvolvidos especialmente para cada caso.
Nos
últimos 40 anos temos visto um enorme descompasso na edição
de normas e regulamentos para os gases liqüefeitos de petróleo.
Tudo começou modestamente, em 1962, com a edição
da norma provisória da ABNT (Associação Brasileira
de Normas Técnicas) denominada P NB 107 - Instalações
para Utilização de Gases Liqüefeitos de Petróleo,
inspirada no Código do NFPA - National Fire Protection Association
- nº 58 da edição vigente na época.
A
esta norma da ABNT, na década de 70, vieram se somar decretos
estaduais do Corpo de Bombeiros de muitos estados, a Norma Regulamentadora
NR 20 do Ministério do Trabalho, normas do extinto CNP -
Conselho Nacional do Petróleo e práticas recomendadas
pelo IBP - Instituto Brasileiro de Petróleo. Embora todas
elas tivessem sido norteadas pela boa intenção de
proporcionar segurança à população e
apresentassem pontos positivos em comum, por outro lado haviam incoerências
radicais.
Um
exemplo dessa incoerência é a distância de segurança
mínima exigida entre tanque com capacidade para 4 ton de
GLP e edificações ou divisas de propriedade: pela
Norma P NB 107 da ABNT e pela NR 20 seria 7,5 metros; pelo Decreto
897 de 21/09/1976, Art. 130 - Código de Segurança
contra Incêndio e Pânico do Estado do Rio de Janeiro
(Corpo de Bombeiros) - seria 500 metros. Pelo Decreto 897 haveria
necessidade de se dispor de uma área livre da ordem de 1.000.000
metros quadrados para se instalar um tanque com a referida capacidade.
Também
nos anos 70 surgiram regulamentos para as instalações
prediais de gás combustível, elaborados pelas empresas
estatais de gás canalizado e amparados com força de
lei por decretos estaduais. Embora tais regulamentos tivessem por
objetivo o uso do gás manufaturado reformado, com a previsão
para o futuro uso do gás natural, em muitos locais onde o
gás canalizado não estava disponível serviu
para a condução do GLP, alimentado em baixa pressão
a partir de centrais de cilindros ou de botijões individuais
de 13 kg.
Nas
duas últimas décadas surgiu um grande número
de portarias e decretos, principalmente nas esferas estaduais e
federal, como Corpos de Bombeiros e órgãos do meio
ambiente, cada qual com suas exigências, sendo algumas até
incoerentes e absurdas.
A
Norma Regulamentadora NR 20, do Ministério do Trabalho, foi
publicada originalmente em 08/06/1978, tomando como base a Norma
P NB 107 da ABNT de 1962, há muito tempo descontinuada, tendo
sido substituída por outras normas como as NBRs 13523, 13932
e 14024 elaboradas pelas comissões do CB 09 - Comitê
Brasileiro de Gases Combustíveis, da ABNT. No momento atual,
existe uma nova proposta de texto para a NR 20, cuja divulgação
para consulta pública foi encaminhada pela Portaria nº
38 de 09/12/2002. A referida proposta apresenta as diretrizes básicas
para a gestão da segurança e saúde dos trabalhadores,
incluindo os aspectos ambientais, e deixando os detalhamentos técnicos
para as normas vigentes, como é desejável.
Portanto,
tendo em vista essa enorme salada de normas e regulamentos, já
é hora dos profissionais e empresas da área do GLP
se mobilizarem pela constituição de uma coordenação
nacional permanente, ligada ao Governo Federal, para tentar costurar
essa colcha de retalhos, unificando e atualizando ou, pelo menos,
tornando coerentes as legislações dos órgãos
estaduais e federais juntamente com as normas da ABNT e normas estrangeiras
aplicáveis.
Introdução
O
retrocesso de chama é um fenômeno indesejável,
que pode ocorrer em sistemas de queima em algumas situações
críticas.
A
definição de retrocesso de chama, como a própria
expressão diz, é o retorno da chama para o interior
do corpo do queimador ou até, nos casos mais graves, para
as tubulações e reservatórios de gás
que alimentam os queimadores.
As
principais conseqüências de um retrocesso de chama são
o superaquecimento e a elevação de pressão
no interior de queimadores, tubulações e seus acessórios,
todas estas indesejáveis. Raramente essas conseqüências
são levadas em conta quando sistemas de combustão
ou de distribuição de combustível são
projetados, exceção feita a sistemas de acetileno
ou hidrogênio.
Causas
mais prováveis
Existem
duas causas principais para que ocorra um retrocesso de chama:
A
causa mais comum é quando a velocidade de saída da
mistura combustível-comburente, em alguma região da
seção transversal do bocal do queimador, é
inferior à velocidade da chama para aquela proporção
de mistura. Isso pode ocorrer quando um queimador está operando
em potência muito baixa ou no momento em que é desligado.
Outra
causa é quando ocorre uma condição de ignição
em alguma parte interna de queimadores de pré-mistura, de
forma que a mistura combustível-comburente se inflame. Isso
pode se dar por um superaquecimento, quando a temperatura mínima
necessária para auto-ignição é atingida,
ou quando outra condição de ignição
se faça presente, como fagulhamento pelo tráfego de
partículas ou centelha elétrica.
No
bocal dos queimadores sempre ocorre uma disputa entre vetores de
velocidades: por um lado, os vetores de velocidade de saída
da mistura combustível-comburente; pelo outro os vetores
da velocidade da chama no sentido contrário ao da mistura.
A estabilidade da chama é o resultado do equilíbrio
dessa soma vetorial em todos os pontos da seção transversal
do bocal do queimador.
As
condições que mais favorecem a ocorrência de
um retrocesso de chama são: baixa velocidade de saída
da mistura ou velocidades de chama elevadas.
As
baixas velocidades de saída da mistura ocorrem quando um
queimador está operando abaixo de sua potência mínima
ou quando o queimador é desligado.
As
elevadas velocidades de chama são características
intrínsecas aos combustíveis, aos comburentes e às
suas misturas. Os gases combustíveis se dividem em gases
de baixa e alta velocidades: o gás natural e o GLP são
considerados gases de baixa velocidade, enquanto que o acetileno
e o hidrogênio são gases de alta velocidade. Porém,
na queima com oxigênio, as velocidades de chama se tornam
elevadas para todos os gases combustíveis, embora os gases
de alta velocidade continuem a manter a vanguarda nesta característica.
Velocidades
de chama
A
velocidade de chama também é conhecida por velocidade
de ignição, velocidade de queima ou velocidade de
propagação da chama.
As
determinações das velocidades de chama dos gases combustíveis
é um assunto que desperta polêmica. É possível
encontrar algumas indicações incoerentes em diferentes
referências literárias. Estamos anexando a seguir a
Tabela 1 e a Tabela
2, de distintas origens, as quais apresentam diferentes informações.
TABELA
1 - Velocidades Máximas de Chama - Segundo GLASSMAN
|
Gás
|
Comburente
= Ar Atmosférico
|
|
v
(m/seg)
|
FC(*)
|
|
Metano
|
0,45
|
1,08
|
|
Etano
|
0,48
|
1,14
|
|
Etileno
|
0,73
|
1,13
|
|
Propano
|
0,46
|
1,06
|
|
Propileno
|
0,72
|
1,14
|
|
n-Butano
|
0,45
|
1,03
|
|
Butadieno
|
0,57
|
1,23
|
|
Monóxido
de Carbono
|
0,52
|
2,05
|
|
Acetileno
|
1,55
|
1,25
|
|
Hidrogênio
|
3,25
|
1,80
|
|
H2S
|
0,41
|
0,90
|
| (*)
FC é o fator de combustão (estequiométrica
= 1,00) |
| Ref.:
Glassman I., Combustion, Third Edition, Academic Press, San
Diego, USA,1996 |
A
Tabela 2, a ser apresentada a seguir,
inclui também as velocidades de chama com oxigênio,
o que nos mostra como este comburente contribui para a elevação
dos valores desta característica. Esta tabela também
indica as faixas de velocidades mais prováveis de serem encontradas.
TABELA
2- Faixas para as Velocidades Máximas de Chama - Segundo
REED
|
Gás
|
Comburente
|
|
Ar Atmosférico
|
Oxigênio Puro
|
|
v
(m/seg)
|
v
(m/seg)
|
|
Hidrogênio
|
2,49 - 3,64
|
8,93
- 11,87
|
|
Metano
|
0,33
- 0,44
|
3,24
- 4,82
|
|
Propano
|
0,40
- 0,47
|
3,60
- 4,01
|
|
Butano
|
0,38
- 0,46
|
3,34
- 3,55
|
|
Acetileno
|
1,10
- 1,81
|
9,49
- 12,77
|
| Ref.:
Reed, R. J., North American Combustion Handbook, Third Edition,
Volume II, 1997. |
As
diferenças radicais entre as velocidades de chama da queima
de gases combustíveis com ar atmosférico (21% de oxigênio)
e com oxigênio puro (praticamente 100% de oxigênio)
tornam impossível a troca do comburente em queimadores convencionais.
Dentro de certos limites, um queimador projetado para queimar gás
combustível com ar pode operar com ar enriquecido com oxigênio,
onde tal limite não costuma ultrapassar o teor de 25% de
oxigênio na atmosfera comburente. Alguns queimadores de alta
velocidade poderiam trabalhar com teores de, até, um pouco
acima dos 30% sem apresentar superaquecimento significativo do bocal
e tendência ao retrocesso da chama.
Existem
queimadores capazes de queimar gás combustível, tanto
com oxigênio puro como com ar atmosférico ou ar enriquecido,
sem que nenhuma modificação seja feita durante a operação,
bastando apenas realizar manobra de válvulas. A utilização
desses queimadores possibilita uma aplicação versátil
em processos de alta temperatura, onde as demandas térmicas
e as necessidades de pressurização da câmara
de queima são muito variáveis. Por exemplo, na etapa
da fusão de um metal a oxi-combustão apresenta as
vantagens das altas eficiência e produtividade. Porém,
caso seja necessário manter o metal líquido no mesmo
forno, a alternativa mais adequada é, geralmente, a combustão
com ar.
Combatendo
as causas
Existem
várias formas de se evitar o retrocesso de chama, as quais
são peculiares a cada projeto de queimador. As principais
medidas são:
1.
Aumento da velocidade do ar ou da mistura ar-gás no bocal
do queimador ou nas suas proximidades;
2. A limitação
da potência mínima;
3. A redução do
teor de ar primário nos queimadores de pré-mistura;
4. A refrigeração
adequada do bocal e do corpo dos queimadores.
No
caso dos queimadores destinados a operar com oxigênio, com
ar preaquecido e em processos de alta temperatura, uma especial
atenção deve ser dada à compatibilidade dos
materiais e dos gases combustíveis com as temperaturas reinantes.
As regiões onde trafeguem misturas combustível-comburente
podem se inflamar ao serem atingidas as respectivas temperaturas
mínimas de auto-ignição. Mesmo nos dutos destinados
ao tráfego de gás combustível puro, ou seja,
na ausência de comburente, um superaquecimento poderia provocar
a dissociação do gás e suas conseqüências
nefastas como acúmulo de fuligem e detonação.
Cabe ressaltar que essa dissociação poderia ocorrer
tanto no tráfego através do queimador como também
em qualquer tubulação de distribuição
de gás submetida a temperaturas excessivas.
Evitando
as conseqüências
Em
casos especiais, quando for necessário evitar as conseqüências
de um eventual retrocesso de chama, dispositivos especiais devem
ser instalados. Esses dispositivos têm por filosofia extinguir
a chama, daí o nome "abafador de chama", e reter
o fluxo reverso cortando a alimentação do combustível
e do comburente. A extinção da chama é obtida
através do seu resfriamento pelo contato com um meio que
absorva calor, de forma a diminuir sua temperatura a valores abaixo
da temperatura mínima de auto-ignição dos gases
considerados (ver Tabela 3, abaixo).
Os
dispositivos mais antigos são do tipo selo de água,
onde o gás atravessa o líquido borbulhando no sentido
ascendente. Esses dispositivos apresentam algumas desvantagens como
umedecer o gás e necessitar de água de reposição
para manter o nível correto. Além disso devem ser
instalados em um trecho rígido da tubulação
e manter uma posição fixa e bem definida.
Os
dispositivos mais modernos são corpos geralmente cilíndricos,
dotados com recheios metálicos ou cerâmicos, de forma
que a chama em retrocesso transfira calor para o recheio resfriando-se,
proporcionando assim a extinção da chama. A zona de
extinção da chama não deve ultrapassar a quarta
parte inicial do comprimento no trajeto através do recheio,
restando as três quartas partes como reserva de segurança.
.
Os recheios podem se apresentar sob duas formas principais: metal
sinterizado e selas metálicas ou cerâmicas.
Os
recheios de metal sinterizado são mais eficientes pois dividem
o fluxo em um grande número de microfluxos o que aumenta
a eficiência da troca de calor. Porém, o metal sinterizado
funciona com um filtro, retendo impurezas em seus diminutos poros,
exigindo sua troca ou difícil manutenção quando
a pressão diferencial entre a entrada e a saída atingir
um valor incompatível com as perdas de carga admissíveis
no trecho considerado. Além disso, apresentam um custo elevado.
Já
os dispositivos com recheio de selas metálicas ou cerâmicas
não funcionam como um filtro para material particulado de
baixa granulometria, portanto praticamente dispensando a manutenção
e eliminando a substituição. Caso este tipo de recheio
seja acidentalmente contaminado com material particulado, gomas
ou matérias graxas e oleosas, sua limpeza é geralmente
fácil de ser feita com o uso de água, solventes, gases
inertes e ar comprimido, de acordo com o contaminante.
A
utilização de dispositivos contra retrocesso de chama
é obrigatória e indiscutível nos casos de queimadores
de pré-mistura gás-oxigênio. Nos demais casos,
a situação deve ser avaliada de acordo com uma série
de fatores expostos a seguir.
TABELA
3- Temperaturas Mínimas de Auto-Ignição (na
pressão atmosférica)
|
Gás
|
Comburente
|
|
Ar Atmosférico (ºC)
|
Oxigênio Puro
(ºC)
|
|
Metano
|
537
|
-
|
|
Propano
|
493
|
468
|
|
n-Butano
|
287
|
-
|
|
Acetileno
|
305
|
296
|
|
Hidrogênio
|
572
|
560
|
| Ref.:
Ahlberg, K., AGA Gas Handbook, First Edition, Lidingö,
Sweden, 1985. |
Os
principais fatores de risco que colaboram para a necessidade da
instalação de dispositivos contra retrocesso de chama
são os seguintes:
1.
Gases de alta velocidade de chama queimando com ar ou oxigênio;
2. Gases de baixa velocidade
de chama queimando com oxigênio;
3. Quaisquer gases queimando
com atmosferas enriquecidas com oxigênio;
4. Mistura combustível-comburente
com extenso campo de inflamabilidade;
5. Queimadores de pré-mistura;
6. Câmara de combustão
pressurizada ou outra configuração que possa exercer
contra-pressão no fluxo de mistura combustível-comburente;
7. Câmara de combustão
ou atmosfera de operação operando cíclica ou
continuamente em temperatura superior à temperatura mínima
de auto-ignição da mistura combustível-comburente
utilizada (Tabela 3);
8. Comburente preaquecido acima
das temperaturas mínimas de auto-ignição;
9. Possíveis riscos e
conseqüências ambientais significativas no caso da ocorrência
de um acidente.
Conclusões
O
retrocesso de chama é um fenômeno que pode se tratar
desde um simples "pop", ao apagar o queimador de um fogão
doméstico, até um acidente de graves conseqüências
atingindo as fontes de suprimento de gás.
A
necessidade do uso de dispositivos contra retrocesso de chama é
um assunto passível de discussão, exceto no caso já
citado dos queimadores de pré-mistura gás-oxigênio
onde deve ser obrigatório.
A
avaliação dos riscos deve considerar não somente
o número de fatores envolvidos mas também a sua intensidade
e possíveis conseqüências no caso de acidente.
Em
casos de dúvida a opção eleita deve ser conservativa,
ou seja, contemplar a instalação de dispositivos contra
retrocesso de chama. As opções mais comuns recomendam
a instalação desses dispositivos na linha de gás
combustível nos queimadores gás-ar e nas linhas de
gás e de oxigênio no caso da oxi-combustão.
Um
gasoduto de transporte pode apresentar uma ampla gama de resíduos
sólidos em seu interior:
1.
Resíduos da sua construção ou manutenção
como carepas de laminação, terra, pequenos animais,
EPI, embalagens de alimentos, eletrodos, porcas, parafusos, vidro,
madeira e resíduos de soldagem;
2. Resíduos oriundos
dos poços de petróleo como sílica, quartzo
e sais inorgânicos como NaCl e KCl;
3. Resíduos da erosão,
quando existe a conjugação de dois fatores: resíduos
sólidos e altas velocidades;
4. Resíduos gerados pela
corrosão dos tubos de aço carbono não revestidos
internamente.
Os
resíduos da construção do gasoduto são
geralmente eliminados no processo de comissionamento pelos procedimentos
de limpeza e passagem de "pigs".
Os
resíduos oriundos dos poços de produção
são retidos nos desarenadores, "slug traps" e filtros,
não devendo, portanto, passar para os gasodutos de transporte.
E
os resíduos da erosão interna dependem de altas velocidades
normalmente não encontradas nos gasodutos.
Portanto,
este trabalho irá considerar apenas os resíduos causados
pela corrosão interna em gasodutos de aço carbono
não revestidos em seu interior, conhecidos como "pó
preto".
"Pó
preto" é uma definição genérica
para o material particulado encontrado em gasodutos de transporte
de gás natural. A denominação da cor preta
deve-se ao fato de o pó ser escuro, em tonalidades que variam
entre as cores café, cinza escuro e preto. É comum
também que esse pó se apresente umedecido, apresentando
cheiro forte de hidrocarbonetos, glicol e enxofre.
O
"pó preto" é gerado por processos de corrosão
de naturezas diversas, com origem ligada às presenças
de CO2, H2S, água,
bactérias anaeróbicas, PH ácido e glicol (vazamentos
da plantas de desidratação).
Portanto,
as substâncias normalmente encontradas no "pó
preto" são os óxidos de ferro, principalmente
Fe3O4 (magnetita) e
FeCO3 (siderita).
Como
na prática é impossível eliminar todas as causas
da corrosão em gasodutos, a formação de "pó
preto" é um processo contínuo podendo apenas
variar de intensidade. Embora este processo seja contínuo,
nem sempre o fluxo de "pó preto" medido em determinados
pontos da tubulação serve para quantificar a sua velocidade
de formação no trecho anterior, devido aos fatores
acúmulo e deslocamento. Quando a velocidade do gás
se apresenta baixa pode haver um acúmulo de pó nas
alças baixas da tubulação, que se desloca quando
a velocidade aumenta ou se passam "pigs".
A
quantidade de "pó preto" gerada será diretamente
proporcional à presença e ao potencial dos agentes
corrosivos, além da área exposta à corrosão
(perímetro interno x comprimento da tubulação).
Portanto,
por mais limpo que o gás seja entregue em um ponto de transferência
de custódia, sua passagem pelo trecho subseqüente de
tubulação certamente implicará na contaminação
progressiva com a formação de "pó preto"
devido à corrosão interna neste trecho.
O
conceito de limpeza do gás natural, com respeito à
presença de "pó preto" em gasodutos de transporte,
deve ser sempre relacionado a pontos bem definidos. Normalmente
este conceito se refere a pontos de transferência de custódia,
medição, estações de compressão
e CRM de consumidores.
Alguns
contratos adotam o termo "comercialmente livre de pó"
em determinado ponto, o que não deve ser compreendido como
absolutamente livre de pó e sim com um teor e granulometria
de "pó preto" que não venham causar dano
aos equipamentos instalados à jusante e próximos desse
local.
O
Regulamento Técnico ANP nº 3/2002, anexo à Portaria
nº 104, de 08 de julho de 2002, se refere a partículas
no item 4 - Observação (1): "O gás natural
deve estar tecnicamente isento, ou seja, não deve haver traços
visíveis de partículas sólidas e partículas
líquidas." Nesta Portaria não estão definidos
o conteúdo máximo de partículas, os locais
onde seriam válidas tais afirmações, nem os
métodos para sua determinação.
Outros
documentos, como o "AGA Gas Measurement Committee Report No.
4A", estabelece que o gás deve ser livre de impurezas,
mas também não as quantifica. A publicação
"An Insight Into Gas Quality", do Institute of Gas Engineers,
também menciona que o gás deve estar comercialmente
livre de materiais, pó ou outra matéria líquida
ou sólida, mas da mesma forma não as quantifica nem
localiza.
Na
Colômbia, a Resolução nº 071 da CREG (Comisión
de Regulación de Energía y Gas) dispõe que
o conteúdo máximo de pó e material em suspensão
seja de 1,6 mg/m³ ou 0,7 grão/1000 pé³ (grão
é uma unidade de massa que corresponde a 64,8 mg), quantidade
essa medida no ponto de entrega ao transportador e por este no ponto
de saída. Além disso, a referida resolução
especifica que o tamanho máximo das partículas deve
ser de 15 microm.
Com
respeito à utilização de termos radicais como
"isento" ou "livre de impurezas", cabe ressaltar
que o metano mais puro que se pode comprar é o que recebe
a denominação "grau de pesquisa", o qual,
ainda assim, não é totalmente puro (99,995%) e cujo
preço é da ordem de US$ 100 (cem dólares norte-americanos)
por metro cúbico, enquanto que o valor do gás natural
é da ordem de poucas dezenas de centavos de dólar.
Embora
possa parecer uma afirmação agressiva, sob o ponto
de vista da minimização de custos, o gás natural
deveria ser o mais sujo possível sem que causasse danos aos
equipamentos. Não podemos nos esquecer que o preço
do gás natural tem de ser competitivo com outros energéticos
para que sua utilização seja economicamente viável,
valendo também lembrar que cada
tipo de equipamento apresenta uma exigência particular quanto
à granulometria do material particulado presente no gás.
A
filtragem de "pó preto" presente no gás
natural, quando sua concentração não varia
muito no tempo, é uma operação rotineira e
previsível. Os tipos mais comuns são os filtros secos,
geralmente de cartuchos, e os filtros inerciais ou centrífugos.
Existem também filtros de contato com óleo ("scrubbers"),
precipitadores eletrostáticos e aglomeradores de atração
magnética ou ultra-som.
Os
maiores problemas ocorrem quando quantidades significativas de pó
surgem inesperadamente em pontos críticos do gasoduto como
estações de medição, estações
de compressão e "city-gates".
Em
1998, ocorreu um acidente desse tipo no gasoduto Ballena - Barrancabermeja,
no interior da Colômbia, onde um "slug" de "pó
preto" acarretou severos danos numa central de compressores
alternativos. As evidências indicaram que houve um acúmulo
significativo de pó entre a derivação da linha
principal e a central de medição situada à
jusante da casa de compressores, devido à desativação
deste trecho por muitos meses e à sua posição
(alça baixa com alimentação através
de picagem pelo fundo do gasoduto, tornando-se uma "lixeira"
para as impurezas do gás).
No
re-alinhamento deste trecho foram soprados apenas a sua parte final,
ou seja, os coletores e os ramais individuais de alimentação
dos compressores. Deveria ter sido soprado também todo o
trecho desde a derivação da linha principal e não
o foi, havendo por essa razão ocorrido o "slug".
Os danos nos compressores foram enormes, pois tanto os filtros de
cartucho a montante da central de medição, como os
"strainers" na entrada dos compressores se colapsaram.
Em seqüência, se danificaram por abrasão as válvulas
de admissão e descarga, bem como as camisas, os pistões
e seus anéis de segmento, além dos danos por esforço
mecânico nas bielas, eixos e juntas de vedação.
Cabe
ressaltar que, no caso de um "slug" de grandes proporções
como o que ocorreu na Colômbia, filtros secos do tipo de cartuchos
podem ficar saturados quase que instantaneamente, rompendo-se em
seguida devido à pressão diferencial gerada entre
a entrada e a saída. Não havendo registrador de pressão
diferencial nem sistema de alarme que indique tal ocorrência,
o fato pode passar desapercebido no momento pois, após o
rompimento de alguns cartuchos, a pressão diferencial praticamente
se anula, dificultando o diagnóstico imediato do fato.
Concluindo,
a formação de "pó preto" em gasodutos
de aço carbono não revestidos é um fato inexorável,
podendo sua geração variar de acordo com as características
do gás, as quais contribuem em maior ou menor escala para
reduzir a vida do gasoduto devido à corrosão.
A
presença de "pó preto" deverá ser
controlada nos pontos-chave, como transferência de custódia,
estações de medição e entrega a consumidores,
sendo para isso necessário regulamentar, no Brasil, os parâmetros
e métodos de determinação para concentração
e granulometria do material particulado presente no gás natural.
Bibliografia
1.
Gas Processors Suppliers Association, ENGINEERING DATA BOOK Volume
1 Sections 1 - 16, Tenth Edition, 1987.
2. American Gas Association (AGA), NATURAL GAS CONTRACT MEASUREMENT
AND QUALITY CLAUSES - GAS MEASUREMENT COMMITTEE REPORT 4A, First
Edition, 1971.
3. Comisión de Regulación de Energía y Gas
(CREG) - Colômbia, RESOLUCIÓN No. 071 DE DICIEMBRE
03 DE 1999.
4. Agência Nacional do Petróleo (ANP), Portaria nº
104, de 08 de julho de 2002 - REGULAMENTO TÉCNICO ANP nº
3/2002.
5.
Baldwin, Richard M., "BLACK POWDER" IN THE GAS INDUSTRY
- SOURCES, CHARACTERISTICS AND TREATMENT, Gas Machinery Research
Council, 1998.
6. Baldwin, Richard M., HERE ARE PROCEDURES FOR HANDLING PERSISTENT
BLACK-POWDER CONTAMINATION, Pipeline Report Oil and Gas Journal
Special, October 26, 1998.
E
se o fornecimento do gás natural falhar? O seu processo pode
permanecer interrompido por quanto tempo?
Uma
eventual falha no fornecimento de qualquer energético é
sempre um fato que desperta muitas preocupações. No
caso do gás natural em particular, apesar da sua probabilidade
de falha ser muito remota, as preocupações também
existem. Mesmo quando o sistema de distribuição de
gás seja confiável, com diversas fontes integradas
em uma mesma malha, ainda assim resta a hipótese da ocorrência
da chamada "síndrome da escavadeira maluca", que
inesperadamente romperia uma tubulação interrompendo
o fornecimento aos consumidores ligados neste ramal.
Os
prejuízos com uma eventual interrupção do fornecimento
de gás natural variam muito de consumidor a consumidor, podendo
representar desde pequenos lucros cessantes até significativas
perdas de produção e, até mesmo, danos permanentes
a equipamentos com elevados prejuízos. Os processos que despertam
maior preocupação seriam os de alta temperatura, como
as indústrias de vidro, siderúrgicas, cerâmicas
ou fundições, onde poderiam ocorrer danos nos refratários
e perdas de produção, ambos devido à diminuição
descontrolada da temperatura. Mesmo na hipótese de uma falha
por um tempo curto, como 10 ou 20 minutos, alguns processos industriais
demorariam muitas horas até restabelecer a cadeia produtiva.
Portanto,
nos processos onde uma eventual falha no fornecimento do gás
natural puder causar graves conseqüências, é necessário
instalar um sistema de "back up". Existem várias
possibilidades para configurar este sistema, como será descrito
a seguir.
Misturadores
GLP-ar
Também
conhecida como ar propanado ou gás natural sintético
(do inglês "SNG - Synthetic Natural Gas"), a mistura
GLP-ar com Índice de Wobbe equivalente ao do gás natural
possibilita sua intercambialidade dispensando modificações
nos queimadores. Haveria apenas a necessidade de observar as alterações
na vazão da mistura devido ao seu poder calorífico
ser superior ao do gás natural.
Considerando
um gás natural com PCS de 9.958 kcal/Nm³ e densidade
relativa de 0,602, a mistura com Índice de Wobbe equivalente
é cerca de 54% de GLP com 46% de ar (PCS = 15.243 kcal/Nm³
e densidade relativa de 1,411). Apesar das características
da mistura GLP-ar serem tão diferentes do gás natural,
seus efeitos térmicos nos queimadores são exatamente
iguais, razão pela qual é possível a intercambialidade.
Assim,
o atendimento à mesma potência térmica exigirá
um fluxo de mistura GLP-ar 34,67% inferior ao fluxo original com
gás natural, o que deverá ser informado ao controlador
do equipamento térmico (operadores, PLC etc.).
A
mistura do GLP com o ar atmosférico pode ser processada com
diversos graus de precisão.
O
sistema mais simples é o misturador de venturi, onde o fluxo
de GLP em pressões elevadas arrasta o ar atmosférico.
A mistura é armazenada em um tanque pulmão em pressões
inferiores a 80 kPa (0,8 bar), garantindo um fornecimento contínuo,
enquanto o fluxo de GLP é intermitente pois deve trabalhar
com pressão constante no venturi. Geralmente este tipo de
misturador se aplica ao abastecimento de sistemas de pequeno porte
e, além disso, onde não seja necessária uma
grande precisão nas proporções da mistura GLP-ar
e nem pressões mais elevadas.
Quando
se trata do atendimento a vazões e pressões mais elevadas,
torna-se necessária a utilização de misturadores
mais sofisticados, onde o ar e o GLP são fornecidos sob pressão
e suas proporções controladas por combinação
de equipamentos como medidores de vazão, válvulas
de controle, sensores de pressão e de temperatura, conforme
a tecnologia de cada fornecedor. As pressões na saída
do misturador podem ser reguladas numa ampla faixa, desde 130 kPa
(1,3 bar) até cerca de 900 kPa (9,0 bar).
Os
sistemas mais sofisticados e precisos incluem ainda o "wobbímetro",
que faz a medição contínua do índice
de Wobbe (ou número de Wobbe) da mistura, também chamado
indevidamente por "calorímetro". Muito embora ambas
as grandezas do poder calorífico e do índice de Wobbe
sejam representadas pela mesma unidade, os significados físicos
são distintos. Enquanto o poder calorífico, determinado
pelo calorímetro, significa a quantidade de calor contida
em uma determinada porção do gás combustível,
o índice de Wobbe representa a ação combinada
do poder calorífico e da densidade do gás no fluxo
térmico através de um orifício submetido a
um diferencial de pressão. Os wobbímetros medem fisicamente
a ação combinada dessas duas características
de um gás combustível, expressas por unidades como
kcal/m³ ou BTU/pé³, mas cujos valores numéricos
não representam o poder calorífico do gás nas
citadas unidades. Por exemplo, o índice de Wobbe superior
de um gás natural é 12.834 kcal/Nm³, enquanto
seu poder calorífico superior é 9.958 kcal/Nm³.
A
garantia da estabilidade do índice de Wobbe possibilita um
controle apurado do fluxo térmico e da regulagem dos queimadores,
razão pela qual o "wobbímetro" é
também utilizado em aplicações onde seja necessário
um controle de alta precisão, sob os aspectos térmico
e da composição dos produtos da combustão.
Uma
das perguntas que normalmente se faz é a respeito da segurança
na condução da mistura GLP-ar no interior de tubulações
e tanques pulmões. Caso ocorresse uma ignição
no interior dessa tubulação haveria perigo de explosão
devido à presença da mistura combustível-comburente?
A resposta é NÃO, porque a mistura seria muito rica
em GLP (54%), estando significativamente acima do limite superior
de inflamabilidade que está na faixa de 8 a 11%, dependendo
das proporções dos seus constituintes.
Queimadores
de rápida conversão GN x GLP
Em
alguns queimadores é possível fazer uma adaptação
que permita uma rápida troca da lança de gás
natural pela lança de GLP, mediante o emprego de flanges
com furos oblongos, engates rápidos etc. Geralmente esta
opção exige a instalação de um cavalete
adicional e linhas de distribuição exclusivas para
o GLP, em paralelo à instalação do GN. A viabilidade
desta opção depende principalmente da existência
de uma quantidade de queimadores, geralmente pequena, associada
à facilidade de acesso e disponibilidade de pessoal para
executar esse serviço no momento crítico da interrupção
do fornecimento do gás natural.
Esta
opção apresenta algumas vantagens como, na ocasião
de uma parada programada do gás natural, permitir a substituição
progressiva dos queimadores, algumas vezes até sem interromper
o processo. E vice-versa na volta para o GN. Outra vantagem seria,
num cenário de preços competitivos entre o GLP e o
GN, poder usar a possibilidade da rápida conversão
como estratégia de negociação visando baixar
os preços, sendo até possível usá-los
simultaneamente - parte dos queimadores com GN e parte com GLP.
Sistemas
de óleo combustível
Existem
várias possibilidades para o uso de óleos combustíveis
como "back up" de gás natural. Como a maioria das
conversões para gás natural partiram de sistemas cujo
energético era o óleo combustível, as instalações
como tanques, bombas, tubulações e queimadores a óleo
podem eventualmente ser aproveitadas ou adaptadas para estarem disponíveis
no caso da interrupção do abastecimento do gás
natural.
Quando
os combustíveis usados eram óleos residuais, onde
sua armazenagem e transporte são dotados de sistemas de aquecimento,
toda essa infra-estrutura pode ser aproveitada. Porém a opção
preferida é limpar todo o sistema e eliminar o aquecimento,
preparando-o assim para o uso de óleos leves como o diesel.
A manutenção dos óleos residuais como "back
up" não é interessante pois as duas opções
não são desejáveis: manter o sistema aquecido
gera despesas com energia e manutenção; manter o sistema
frio torna a entrada em operação demorada e até
duvidosa.
Quanto
aos queimadores, na ocasião para conversão para o
gás natural pode-se optar pela compra de queimadores duais,
aqueles que podem queimar gás natural ou óleo combustível,
ou até em alguns casos ambos simultaneamente. Outra opção
seria a instalação de queimadores de rápida
conversão gás x óleo, mediante a troca de lanças.
Somente em alguns raros casos seria possível substituir o(s)
queimador(es) a gás pelo(s) antigo(s) queimador(es) a óleo,
pois em geral exigiria um tempo de paralisação incompatível
com o processo da indústria.
As
únicas desvantagens do sistema de "back up" de
gás natural com óleo combustível seriam: a
contaminação ambiental, onde isso não fosse
mais aceito pelos órgãos ambientais ou pela política
da empresa; a deterioração dos equipamentos como corrosão,
ataque aos refratários etc.; ou quando pudessem ocorrer distúrbios
no processo de fabricação pela alteração
do método de transferência de calor (radiação
x convecção).
Conclusões
A
adoção de um sistema de "back up" para fazer
frente a uma eventual falha no fornecimento de gás natural
torna-se obrigatória na medida em que os prejuízos
como lucros cessantes ou danificação de equipamentos
assim o exigirem.
O
sistema de "back up" escolhido deverá ser colocado
periodicamente em operação, de forma que seu funcionamento
esteja garantido quando requisitado. Em alguns casos é até
recomendável que este sistema se mantenha permanentemente
em operação, ainda que implique em custos adicionais,
quando necessário assumir imediatamente qualquer eventual
falha no fornecimento de gás natural.
Além
disso, a existência de um sistema alternativo certamente aumentará
o poder de negociação da parte do consumidor, quando
os preços de ambos combustíveis forem competitivos
nas respectivas faixas de consumo.
|