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III - O Enigma se Perpetua

A Descoberta

Milhares de anos após o detonar da consciência, o homem descobriria, enterrado na Lua, o monolito. Um fato, no entanto, diferenciaria o momento pré-histórico do lunar: no primeiro caso, o monolito foi de encontro ao homem-macaco e, no segundo, o homem (habilitado por sua consciência) foi à procura do monolito – atraído pelo campo magnético do mesmo.

Ora, analisemos tal descobrir tendo em mente as conclusões alcançadas no capítulo I: se o monolito é compreendido como o enigma, o desconhecido, o como e o porquê do detonar da consciência, o que significaria a sua descoberta pelo homem?

Assim como em determinado momento de nossa evolução biológica viemos a transcender o viver irracional, mais tarde, com o conseqüente aperfeiçoamento de nossa subjetividade, viríamos a alcançar, inevitavelmente, a consciência da existência do monolito (viríamos a descobrir sua existência a partir do momento em que o enigma fosse, por nós mesmos, formulado).

O toque do homem no monolito, contudo, é tão superficial, tão impenetrante quanto o do irracional homem-macaco. Os milhares de anos que separam a incipiente consciência que construiu o osso daquela que construiu tamanha opulência tecnológica parecem perdidos na escuridão obturadora do monolito. Assim como com seu ancestral primitivo, o homem encontra-se abaixo da altiva pedra (menos abaixo, é verdade, mas ainda muito distante de decifrá-la).

A Crise

Um zunido ensurdecedor faz-se ouvir dentro da mente dos astronautas que circundavam a pedra misteriosa. Surpreendidos, levam as mãos instintivamente aos ouvidos, mesmo estando equipados com capacetes. Acima do monolito, finalizando a seqüência (como no take final da aparição pré-histórica), podemos observar a conjunção.

Por que o homem seria, naquele momento, submetido a tão agressivo zunido? O que seria aquilo que subitamente o atormentara?

A consciência que descobriu o monolito (formulou o enigma), descobriu igualmente a sua incapacidade de decifrá-lo. O zunido que atormenta a mente do homem é a crise de uma consciência que confronta-se com a incapacidade de compreender o enigma, o que, conseqüentemente, remonta à própria incapacidade do homem compreender a si mesmo – o não saber o como e o porquê de nossa consciência remonta aos porquês que formulam a crise humana mais profunda: quem sou? De onde venho? Para onde vou?

Vamos analisar novamente a seqüência e, então, traçar seus diferentes momentos:

1 - O homem descobre o monolito (formula o enigma: o como e o porquê da consciência)
2 - O homem lança o olhar sobre o monolito e o toca (tenta decifrar o enigma)
3 - O homem afasta-se sem respostas (descobre sua incapacidade de decifrá-lo)
4 - Soa um alarme na mente do homem (desencadeia-se a crise humana mais profunda: quem sou? De onde venho? Para onde vou?)

Na trama superficial do filme, o zunido foi interpretado como sendo uma emissão de rádio dirigida ao planeta Júpiter... Mas percebam que, na trama simbólica, Júpiter simboliza o findar da consciência, a morte. Claro! Quando o homem descobre-se incapaz de decifrar o enigma (o como e o porquê de sua consciência), resta uma única certeza: o tempo para solucioná-lo se esgota a cada dia (daí o desencadear da crise).

Um dado, entretanto, parece destoar: se o take da conjunção sinaliza o equilíbrio, qual seria o porquê de sua inclusão simultaneamente a tão agressivo zunido? Ora, se o zunido simboliza o desencadear de tal crise, a conjunção vem a avalizar a condição de equilíbrio, de perfeição desse desencadear.

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