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II - Apenas Aperfeiçoamos os Ossos

O salto passado/futuro é extraordinário. Tal passagem, embora pareça um tanto brusca à primeira vista, descortinará uma aproximação constantemente maior entre osso e nave, animal e homem.
Prestem atenção, no entanto, na caneta que flutua dentro da espaçonave. A associação é genial: de todos os instrumentos de poder que o osso tornar-se-ia, poucos teriam tanta força quanto a caneta.

O osso transforma-se na espaçonave (percebam que trata-se de um satélite bélico, apontando seu poderio nuclear em direção à Terra), mas também transforma-se na caneta, com tudo que ela pode significar como instrumento de poder.

Alterando um pouco a estrutura do ensaio, passarei a citar recortes de algumas seqüências, seguindo a ordem cronológica da obra. Isso se faz necessário porque, daqui para frente, o filme se dedica a nos provar (com bastante sutileza) que a evolução humana consistiu apenas num aperfeiçoamento dos ossos, ou seja, que o animal e o homem estão muito mais próximos do que podemos supor.

Portanto, para facilitar a identificação desses trechos pelo leitor, passarei a colorir os títulos dos recortes que sugerem, subliminarmente, uma aproximação entre passado e futuro, animal e homem.

A Conversa com a Filha

A bordo da estação orbital, Dr. Heywood Floyd faz uma ligação para sua casa (o picture phone apresenta um monitor onde é possível visualizar a pessoa com a qual se conversa). Era aniversário de sua filha e ele havia telefonado para parabenizá-la. Coincidentemente, a própria menina recebe a chamada e o que parece, a partir de então, apenas uma conversa descompromissada entre pai e filha, torna-se o primeiro dado a sinalizar as interseções que aproximam passado e futuro.

Perguntando à menina a respeito da mãe, Floyd obtém como resposta que ela havia saído para fazer compras. Indagando, em seguida, a respeito de Rachel (talvez uma babá), ele obtém como resposta que a mesma encontrava-se no banheiro. Ora, temos aí dois dados que nos autorizam a estabelecer as primeiras interseções que aproximam o homem do animal.

O fazer compras nada mais é que uma maneira sofisticada de tratar de um assunto antigo: conseguir utensílios e mantimentos necessários à sobrevivência (comida, roupas, medicamentos...). Da mesma forma, o fato do homem viajar através do espaço não fez com que ele deixasse de ir ao banheiro.

O Controle da Informação

Conversando com um grupo de astronautas russos, Dr. Floyd (que é norte-americano) é indagado a respeito do motivo pelo qual uma das espaçonaves russas teria sido proibida de fazer uma alunissagem de emergência na base de Clavius, assim como acerca do boato de haver uma epidemia de origem desconhecida alastrando-se por tal base.

Com o intuito de preservar a informação acobertada por tal boato, Floyd diz não estar autorizado a comentar tais questões, desculpando-se.

Num nível avançado, o controle da informação seria um importante osso a potencializar o poder perante o outro. Milhares de anos após o confronto pelo domínio da fonte de água, o grupo norte-americano enfrenta o grupo rival (e percebam que, entre ambos, sobre a mesa, temos copos com bebida).

A Necessidade Eterna

Presente de forma acintosa durante todo decorrer do filme, a necessidade de alimentação afirma-se eterna. Embora na parte espacial o alimento apresente-se sob forma sintética, seu fim permanece inalterado: suprir essa necessidade básica do animal.

Apontamentos Finais sobre o Capítulo II

Os recortes aqui apresentados não deixam dúvidas quanto ao intuito de seus criadores: mostrar que aperfeiçoamos nossa subjetividade (e, conseqüentemente, nossos ossos), mas, basicamente, continuamos impulsionados na direção e no sentido dos mesmos fins que nos movem há milhares de anos.

É possível perceber, durante todo o desenrolar dessa parte do filme, que há uma certa insistência no tocante à exibição das maravilhas tecnológicas construídas pela mente humana: estações orbitais, espaçonaves, bases lunares... Será que Kubrick e Clarke realmente acreditavam que a tecnologia, num espaço de apenas 33 anos, alcançaria tamanho avanço técnico e científico?

Hoje, sabemos que ambos temiam idealizar um futuro que estivesse obsoleto no ano de 2001, o que funciona como uma possível justificativa para tamanho exagero. No entanto, devemos estar atentos à possibilidade dessa opulência desempenhar uma função simbólica na narrativa do filme. Vamos, então, aguardar o desenrolar da trama à espera de alguma resposta.
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